O mito grego de Eros e Psiquê

Muitos são os mitos gregos repletos de beleza e ensinamento que, todavia, permanecem válidos até os dias atuais.

Joseph Campbell, o maior estudioso na área de mitos nos diz que os mitos não são uma mentira. Segundo Campbell, mitos são poesia e metafísica, o que conecta muitas verdades atemporais em diferentes histórias, de modo que chamamos de “mito” as religiões ou tradições dos outros, as quais não compreendemos, e nunca as nossas em questão.

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O Mito de Eros e Psiquê

Psiquê era filha de Mileto, um rei mortal, e a mais bela de suas três filhas. Ela era capaz de despertar a admiração de qualquer pessoa e vários viajantes de lugares longínquos vinham de longe para apreciar tamanha beleza, pois jamais tiveram visto alguém tão belo como ela era. Na Grécia Antiga, só era conhecida a beleza de Eros, o deus do Amor, e de sua mãe Afrodite, a deusa da Beleza, de forma que as pessoas se admiravam por nunca terem contemplado pessoalmente uma beleza tão peculiar.

As irmãs de Psiquê, que não eram tão belas, logo se casaram, porém a jovem não, pois nenhum homem, apesar de achá-la muito bonita, tinha coragem de casar-se com ela e assumir tamanha responsabilidade. Logo, o rumor de sua beleza chegou à Afrodite, o que de fato deixou-a muito zangada.

Afrodite, a fim de não perder sua autoridade como deusa da Beleza, convocou uma reunião com os outros deuses do Olimpo e todos eles concordaram com o plano de vingança que ela havia elaborado.

Assim sendo, o rei, preocupado com o destino da filha, resolveu consultar os oráculos e todos eles deram a mesma resposta: a de que Psiquê não havia encontrado ainda um pretendente por seu destino já ter sido traçado pelos deuses. Ela estava condenada a casar-se com um terrível monstro e nunca mais ver sua própria família. Os pais, muito tristes pelo destino da filha e temerosos de contrariar ordens superiores, foram mandados pelos deuses a vestirem-na com trajes de núpcias e colocarem-na num alto de um rochedo para ser desposada pelo monstro.

E assim fizeram: banharam-na e vestiram-na com os trajes, de maneira que a jovem foi deixada no alto do rochedo. Já cansada esperando o marido para desposá-la, ela resolveu se deitar e adormeceu, até que um vento muito forte, Zéfiro, soprou e a levou pelos ares e Psiquê foi transportada para um lindo vale. O local parecia um cenário de sonhos: havia um castelo enorme de mármore e ouro e vozes sussurradas que lhe informavam tudo o que precisava fazer. Ela foi guiada a um enorme banquete, com as mais diversas especiarias pela voz e depois para um quarto muito aconchegante para que pudesse descansar. Ao ir para o aposento, logo percebeu que alguém a acompanhava e a voz lhe disse “sou o seu marido”, de forma que ela descobrira então que era este o marido que lhe havia sido predestinado que, todavia, estava usando um manto e uma máscara.

Ele era extremamente carinhoso e a fazia sentir bastante amada, nunca deixando faltar nada para o seu bem-estar. Todavia, ele havia colocado uma condição: ela não poderia ver a sua face, dizendo: “Você precisa confiar em mim, pois um dia irá saber. Se vir minha face, me perderá para sempre. Apenas confie”. Psiquê concordou com a condição e permaneceu com ele, muito feliz por sinal.

O marido aparecia somente à noite, deixando tudo ao seu dispor, de forma que, quando amanhecia, ele desaparecia. Com o passar do tempo, mesmo se sentindo extremamente feliz porque seu marido era o melhor dos esposos e a fazia sentir o mais profundo amor, ela resolveu fazer-lhe um pedido arriscado: o de ir visitar seus pais e as irmãs, mesmo sabendo que era contra a regra do oráculo. O esposo, após muita insistência de Psiquê e contrariando a regra dos deuses, informou que algo terrível aconteceria. Psiquê continuou insistindo até que ele permitisse, por fim, que as irmãs a visitassem.

Ao chegarem, as irmãs se depararam com o grande e farto palácio e sentiram muita inveja de Psiquê, pois além de não serem tão bonitas quanto ela, seus maridos não detinham tantos bens. Elas encheram Psiquê de perguntas sobre o marido e sua aparência, de maneira que a jovem ela acabou revelando que nunca houvera visto seu rosto anteriormente. Elas especularam: “Psiquê, você já pensou na possibilidade de que seu marido seja um monstro? Você deve ver seu rosto para ter a certeza!”. Após irem embora, a dúvida foi então gerada na mente de Psiquê.

Dias se passaram e, em uma das noites, ela pediu para que o marido deixasse ver o seu rosto, o que foi prontamente negado. “Você deve confiar em mim, Psiquê” – Replicava o marido.

Num outro dia, a jovem ainda se sentindo sozinha, pediu ao marido que a deixasse pelo menos ver as irmãs pela última vez. Ela alegou que nada havia acontecido da última vez que se encontraram, convencendo por fim o marido a permitir a visita novamente, de forma que este a advertiu, mais uma vez, para que ela tivesse muito cuidado com as próprias irmãs.

As irmãs chegaram outra vez e retomaram o mesmo assunto sobre ela nunca ter visto o rosto do homem. Psiquê, vencida pela dúvida, pergunta para as irmãs como ela poderia então fazer para ver o rosto do homem. Uma delas respondeu: “leve consigo uma vela e uma faca. Ao anoitecer, quando ele adormecer você acende a vela e, no caso dele ser um terrível monstro, mate-o imediatamente antes que ele ataque.”

Nessa mesma noite, com o coração totalmente tomado pela curiosidade, após o homem adormecer, ela acendeu uma vela e procurou ver o rosto do marido. Para seu espanto, viu o próprio Eros, criatura de extrema beleza e ficou totalmente extasiada e encantada pela beleza estonteante do marido oculto, que teria feito esse pedido para que a esposa se apaixonasse pelo que é e não somente por sua beleza. Psiquê ficou tão deslumbrada pela visão do esposo que não percebeu que uma gota da cera da vela pingara no peito do amado e isso o fez acordar assustado. Ele, ao ver que ela tinha quebrado a promessa, prontamente desapareceu, como num passe de mágica, junto com o palácio e tudo o mais.

Sozinha e infeliz, Psiquê começou a vagar pelo mundo. Um dia, em extremo sofrimento e amargura, de tanto implorar aos deuses uma nova chance, ela foi levada para a presença da própria Afrodite.

“Você desobedeceu a ordem dos deuses, perdeu meu filho para sempre” – disse Afrodite. Psiquê, após tanto implorar dizendo que faria de tudo para ter o amado de volta, se submeteu aos desafios de Afrodite.

O primeiro deles foi o seguinte: Afrodite levou Psiquê a uma sala, onde havia uma enorme pilha de grãos, todos misturados. A jovem deveria separar a pilha em pequenos montes de feijão, ervilhas, milho, cevada, e outros grãos que ela mal conhecia antes do anoitecer. Incrédula diante de tamanho desafio, Psiquê se desanimou diante dessa primeira tarefa, até surgir um pequeno grupo de formigas que se encarregaram do trabalho, colocando cada grão em seu devido monte.

Não acreditando em como ela conseguiu realizar a tarefa, Afrodite colocou um segundo desafio: a tarefa de obter um punhado de lã dourada dos carneiros selvagens. Desta vez, Afrodite acompanhou Psiquê a um campo onde pastavam os carneiros, animais extremamente perigosos, mas dotados de algumas mechas de tal lã. Psiquê sabia que poderia ser morta ao chegar perto deles e, mais uma vez, não acreditou que conseguiria realizar sua missão. Quando deixou o desespero de lado e passou a observar os carneiros, percebeu que os animais se coçavam esfregando-se nas árvores. Psiquê esperou, então, o anoitecer e, quando os animais se afastaram, ela colheu calmamente os fios dourados que ficaram nas árvores.

Já era demais para Afrodite, que elaborou desafios impossíveis para que Psiquê entendesse o valor do “o perderá para sempre”. Assim, esta lhe atribuiu uma terceira tarefa: Afrodite entregou a Psiquê uma jarra de cristal que deveria ser cheia com a água negra que caía de uma cascata muito alta. Para chegar perto da água, Psiquê precisava caminhar pelo musgo, portanto poderia facilmente escorregar, cair e quebrar a jarra. Era praticamente impossível alcançar aquela distância toda e apanhar a água com segurança.

Eis que uma águia tornou-se o referencial para a solução: o animal apanhou em seu bico a jarra, encheu-a d’água e voltou, entregando-a com segurança nas mãos de Psiquê.

Mais uma vez, não acreditando na capacidade da jovem, Afrodite lançou o quarto e último desafio, o qual tinha certeza de que ela não passaria: a tarefa de Psiquê descer até o mundo subterrâneo para pegar uma caixa e devolvê-la à Afrodite. Além do medo do mundo subterrâneo, a moça sabia que no caminho encontraria diversos espíritos que lhe pediriam ajuda, tentariam dissuadi-la de realizar a tarefa ou simplesmente dificultariam seu trabalho.

O grande desafio de Psiquê era manter-se fiel ao seu objetivo. Algumas vezes, disse não às pessoas que a interpelaram, outras vezes, as atendeu, mas nunca deixou de priorizar suas metas. Assim, ela chegou ao mundo subterrâneo e pegou a caixa das mãos de Hades. Porém, no caminho de volta, Psiquê não podia conter sua curiosidade e abriu a caixa: prontamente ela caiu em um sono profundo com o pó de Morfeu que havia dentro do objeto.

Eros, consternado com a situação, implorou misericórdia a Zeus, que depois de muito declinar, acabou aceitando suas condições. Afinal das contas, foram atribuídos a ela desafios impossíveis, que todavia ela conseguiu realizar. Ele então a beijou e Psiquê e esta foi transformada numa deusa, de forma que jamais pudera voltar ao mundo dos humanos novamente. Eles então se casaram no plano dos deuses e a partir daí, Eros e Psiquê nunca mais se separaram e viveram felizes para sempre.

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Análise do mito
O mito de Eros e Psiquê possui muitos valores a serem ensinados. O primeiro deles, como podemos perceber, é a questão de que Psiquê desde cedo se mostrava diferente dos seres humanos comuns, possuindo um significado intrínseco que pode ser interpretado como as nossas virtudes. Todos nós admiramos a virtude e as pessoas virtuosas, porém assim como os homens que não tinham coragem de pedir Psiquê em casamento, nós não assumimos as virtudes para nós, permitindo que vivamos experiências que muitas vezes sabemos que serão infrutíferas para a nossa evolução.

Nosso tempo pode ser comparado com um arqueiro com um número de flechas limitado em uma floresta: este mesmo arqueiro não atirará suas setas a esmo e sim procurará analisar bem o seu alvo a fim de acertá-lo. O alvo é pequeno e exige conhecimento e uma boa pontaria, de forma que o espaço fora deste mesmo alvo é muito maior e nos dá inúmeras possibilidades de atirarmos, porém sem direcionamento algum. Nosso tempo, assim como as setas, é limitado e por isso precisamos selecionar melhor as nossas experiências.

Psiquê, sendo destinada a “casar-se com um monstro”, representaria a nossa união com a saída do processo de ignorância, pois quanto mais adquirimos conhecimento, mais percebemos que todo o universo é regido por leis, as quais devemos respeitar e estudar a fundo. Sair de uma posição de conforto proporcionado por uma crença é algo doloroso, pois neste processo percebemos que somos nós os responsáveis por nossas próprias tragédias e aquilo que permitimos que aconteça em nossas vidas. As guerras, crueldades e todos os desastres humanos são a soma dessa falta de conhecimento que temos, de modo que torna-se mais fácil atribuir a culpa de nossos sofrimentos em eventos, pessoas ou divindades externas do que a nós mesmos.

Psiquê se une a Eros, que não se revela prontamente. Como qualquer pessoa facilmente se uniria a um deus, Psiquê deveria provar seu amor verdadeiro através da confiança, pois caso soubesse que “o mostro” fosse o deus da beleza, assim como qualquer pessoa, prontamente aceitaria o casamento. Ela se deixou levar pela dúvida imposta pelas irmãs, ou seja, pelas forças externas que nos puxa para baixo, assim como nos faz a sociedade.

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Os desafios de Afrodite

Tendo se dado conta do erro, Psiquê voltara à sua condição anterior de solidão, o que a fez se sentir extremamente infeliz. Ela reconhece o seu erro e mesmo sabendo que perdera Eros para sempre, acaba persistindo e colocando suas forças em cumprir os desafios impostos por Afrodite.

No primeiro desafio Psiquê trabalharia o discernimento, já que tinha de selecionar os grãos e para isso deveria ter conhecimento – trata-se de um domínio físico da matéria, começando por sua organização. No segundo desafio, Psiquê trabalharia a virtude da percepção, a fim de bolar estratégias para apanhar a lã dos carneiros selvagens sem se prejudicar. Os animais selvagens em vários mitos representam nossos instintos e as questões de nossos corpos que deveríamos dominar para evoluirmos.

O terceiro simbolizado pela águia, uma imagem ícone do império Romano, faz alegoria com a Sabedoria, uma vez que este animal voa alto e pode enxergar a tudo. Neste desafio, Psiquê enfrentaria um processo de domínio emocional também simbolizado pela água, que se refere às emoções em mitos de várias culturas.

Por fim, desafio de fogo de Psiquê de descer até os infernos para apanhar a caixa de Hades parecia ser o mais fácil, sendo na verdade o mais enganoso. O fogo é sempre apontado como o intelecto, assim como no mito de Prometeu ao roubar o fogo do Olimpo e distribuir aos homens, dando a eles a capacidade de serem como os deuses também. Psiquê então desceu a um plano obscuro de sua mente e ali deixou-se vencer mais uma vez por aspectos não superados: a curiosidade de fazer algo que não lhe competia.

Podemos perceber que o mito nos mostra uma aptidão que o ser humano tem para não fazer coisas que lhe compete como também a aptidão para fazer aquelas coisas que não lhe compete.

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E o que temos a aprender com o mito?

Valores como superação, persistência e busca pelo aprimoramento pessoal são aprendidos no mito de Eros e Psiquê. Percebemos que mesmo que existam forças externas impostas pela sociedade que possam nos levar para baixo, devemos nos manter firmes aos nossos valores e àquilo que nos transforma em seres humanos melhores.

O domínio de nossas falhas são desafios impostos a nós todos os dias, de maneira que sempre estaremos, a cada instante, tendo de superar algo dentro de nós mesmos.

Também no mito a natureza sempre esteve presente, auxiliando Psiquê a chegar onde pretendia, o que significa que jamais estaremos sozinhos e que tudo, inclusive as piores experiências, acontece para nosso aprimoramento pessoal.


Texto por: Luciana Calogeras

http://universointeligente.org/veja-o-que-o-mito-grego-de-eros-e-psique-tem-a-nos-ensinar/


A professora Tarsila Baylão resolveu utilizar sua rede social para compartilhar um conteúdo incrível que muito tem ajudado seus alunos: uma esquematização visual dos conteúdos ensinados em aula.

Há seis anos graduada, Tarsila leciona Língua Portuguesa, Língua Inglesa e Redação. Ela passou bastante tempo planejando a estrutura de seu novo método, consultando vídeos no Youtube e em outros sites para elaborar esquemas e publicar no Facebook as fotos tiradas de sua nova metodologia de ensino.

Rousseau

Para Rousseau, o Homem nascia livre e bom, a sociedade é que o corrompia. Suas ideias podem ser sintetizadas com a belíssima frase inicial de sua principal obra, O Contrato Social,: "“O homem nasceu livre, e por toda a parte geme agrilhoado; o que julga ser senhor dos demais é, de todos, o maior escravo".

Dor - conto - Odenilde Nogueira Martins

Dor

            Parecia que lhe esmagavam o peito, tamanha era a dor que sentia.
            - Sua vaca! Você trouxe essas merdas aqui! Você vai me pagar! Te suma da minha frente e leve essas fedorentas daqui!
            Foi assim que a mãe gritou-lhe ao avistar, chegando ao portão, as duas fisioterapeutas, que a custa de muita economia, os filhos contrataram para reabilitá-la, fora vítima de um AVC isquêmico.
            Dona Leôncia fora encontrada caída no chão de seu quarto por um dos filhos. Ficara internada em uma unidade especializada em AVC agudo por vinte dias, depois, transferida para um hospital clínico por mais dez. Foram dias muito sombrios e, alguns deles, sem esperança de que teriam a mãe de volta.
            No entanto, lá estava dona Leôncia de volta a casa. O Natal foi comemorado com muita gratidão a Deus por permitir que ela voltasse. Tinham pela frente um caminho árduo, sabiam disso.
            - Mãe, por favor, se acalma. Elas estão aqui para te ajudar a deixar a cama, para que você volte a andar.
            - Cala a boca! Eu vou quebrar a tua cara! Eu não comando mais a minha vida? Já não disse que não quero? É você que decide na minha casa? Sua vaca! Cadela!
            - Mãe, por favor, é para o teu bem. Nós só queremos te ver andando novamente. Se você não fizer a fisioterapia, vai ficar entrevada na cama.
            A cena descrita já acontecera outras vezes desde que a reabilitação começara, e a dor também não era nova, mas sempre sentida com a mesma intensidade pela filha.
2
            - Nelson! Nelson! Onde se enfiou esse homem de Deus!
            - O Nelson tá no outro mundo, mulher!
            - Eu sei!
            - Então, por que tá chamando? Quem eu sou?
            - Não tô chamando! Você tá louco, Mauro! Onde é que você tava que demorou tanto? Atrás de mulher, seu sem-vergonha! Pensa que eu sou boba? Tô de olho aberto com você. Vou contar pro meu filho. Você vai ver! Vou te mandar embora! – gritava, dedo em riste.
            - Se me mandar embora, quem vai cuidar de ti?
            - Arrumo outro!
            Todas as noites, era Nelson, o falecido marido que dona Lia chamava. Parecia que Mauro, o marido atual, não existia em sua memória delirante. Sofrera um AVC no mesmo dia que dona Leôncia. Tem três filhos que não aparecem nunca! É o pobre Mauro, chamado nos delírios por Nelson, o falecido, quem ficava vinte e quatro horas, todos os dias, como acompanhante.
3
            - Então você vai viajar? Para onde?
            - Vou para a Europa.
            - Com quem?
            - Com três amigas.
            - Está cheio de “amigas”!
            - É verdade. Sempre estive cercado de muitas mulheres.
            - Por que veio aqui se tem tantas mulheres?
            - Vim te visitar. Você é minha amiga.
            - Que amiga! Não quero ser tua “amiga”!
            - Parece que está com ciúme! Não tenho culpa se as mulheres vivem me cercando! – tudo foi dito com voz e trejeitos efeminados pelo homem de cabelos brancos a uma senhora de noventa e dois anos! - Eu e você somos amigos. Só isso! Não quero nada mais com você.
            - Ele gosta muito de mim. Casa comigo na hora que eu quiser. Para a minha família, ele é meu noivo - dizia dona Valda a uma moça que se encontrava no quarto, depois que o assediado pretende saiu. – Eu é que não me decidi.
            Dona Valda se expressava muito bem, era pintora e contava que o filho construíra um atelier novo para que pudesse pintar em um espaço amplo, arejado e com boa iluminação.
            Mayara estranhou o filho ter se preocupado em construir-lhe um bom atelier, já que no dia em Valda chegou, ele a deixou dizendo que voltaria logo e nem sinal. A senhora passou a noite sozinha. Quando foi servido o lanche da noite, penalizada, a moça acordou a anciã:
            - Dona Valda, trouxeram um lanche. A senhora quer comer?
            - Ah! O meu filho trouxe? Onde ele foi? – perguntou ansiosa, os olhos correndo pelo quarto.
            - Não. O seu filho ainda não chegou. Quer que eu ajude a senhora a sentar-se?
            - Sim. Obrigada, minha filha. Eu não consigo comer deitada. Será que você pode me dar um copo de água? O meu filho disse que ia buscar um ventilador e que já voltava.
            - Então ele não vai demorar.
            Mayara nunca viu o tal filho. Quem passou a acompanhar a mulher, durante a noite, foi uma jovem estagiária de enfermagem, paga pela própria Valda. Durante o dia contava com a ajuda de outras pessoas que por ali passavam, enquanto se recuperava de uma pneumonia.
4
            - Essa balofa, aí do lado, roubou uma blusa minha! – gritava dona Leôncia, apontando para Lia.
            - Não, vó. Ninguém roubou nada – tentava acalmá-la, Silmara, a nora.
            - Roubou sim! Eu vi! Tá dentro da bolsa dela. Pegue a minha blusa!
            - Vó, não faz assim. Dona Lia vai se ofender.
            - Devolva já, sua ladrona!
            - Eu não roubei nada – defendia-se a mulher. – Pode olhar!
            - A senhora desculpe. Claro que a senhora não roubou. Dona Leôncia está confusa – explicava a nora, tentando desculpar a atitude da sogra.
            - Ela tá roubando todas as minhas coisas! Até os meus cremes e sabonete. Quero a minha blusa de volta! – gritava.
            Quando a filha chegou ao hospital, encontrou a mãe vestindo uma camiseta cor de abóbora, com os pés calçados e de fralda geriatra.  O olhar da cunhada dizia: O que fazer? Explicou que, com a permissão de dona Lia, mostrara a Leôncia as coisas de sua bolsa. A camiseta regata, segundo a sogra, fora roubada e para garantir que não mais seria furtada, fez com que a vestissem.  Mayara não sabia se ria ou se chorava, a cena era no mínimo tragicômica.
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            Ainda não conseguia entender sua incapacidade de ver a fragilidade daquela mulher. Para ela, a velhice, a fraqueza muscular e óssea, a carência de atenção, eram insignificantes. Ela era uma mulher forte, altiva e independente.
            - Seis filhos e ninguém pra me socorrer! – foi o que disse, ainda de maneira clara.
            Era terça-feira, 11.30, quando entrou em casa, o celular, que havia deixado sobre a cama, estava tocando. Era um de seus irmãos, que sequer conseguia lembrar qual deles, dizia-lhe:
            - Nossa mãe está aqui no Hospital Santo Antônio. Ela está muito mal.
            O resto de que foi falado, também não se recorda. Se é que algo mais foi dito.  Incapaz de entender o que estava acontecendo, viu-se diante do hospital.
            “Minha mãe em um hospital!” – pensava incrédula. Aquela mulher, que sempre vira como uma rocha, em um hospital?
            “Deve ser um engano ou um afobamento de meu irmão que sempre foi muito medroso quando o assunto é saúde” – tranquilizava-se.
            Como atravessou a rua? Não sabe. Passando pelo portão, viu seus irmãos. Era claro o desespero no rosto de cada um. Santiago estava sentado sobre uma mureta com o rosto encravado entre as mãos, soluçando convulsivamente.
            “Meu Deus! O que era aquilo tudo? Minha mãe! Imagine! Eles devem estar dramatizando!” – tentava convencer-se.
            - O que aconteceu? Por que a mãe está aqui?
            - Ela teve um AVC – respondeu uma das irmãs. – Nós te ligamos muitas vezes, deixamos mensagens, mas você não atendia.
            “Eu e minha maldita mania de achar que não devia levar celular para a escola, já que é expressamente proibido o uso do aparelho pelos alunos. Amaldiçoou o meu senso de “certo” e “errado”, a obsessão em cumprir regras!”- maldizia-se.
            - Às cinco horas me levantei pra ir ao banheiro, vi a luz do quarto dela acesa e pensei: “A mãe tá se levantando agora, dá pra dormir mais um pouco. E voltei pra cama.” Às sete e pouco, levantei pra me arrumar pra trabalhar, olhei pela janela, vi que a porta estava fechada e a cuia de chimarrão estava em cima da mesa. Chamei:
            - Vó! Tá tudo bem? – ouvi ela resmungar e pensei: “Tá no banheiro escovando os dentes.” Fui no muro e chamei novamente e ela resmungou. Pensei que ela estava mesmo escovando os dentes. Entrei, terminei de me arrumar, peguei a moto e falei pra Miranda:
            -Venha junto. Vamos passar na mãe pra ver se está tudo bem. A Miranda entrou e eu fiquei no portão, em cima da moto. A Miranda olhou pela janela do quarto e ela estava caída no chão. Arrombei a porta, deixei a moto, peguei o carro e levei pro PA. É o mais perto. O médico examinou, botou na ambulância e veio acompanhando. Disse que ela teve um AVC e que o atendimento nas quatro primeiras horas era muito importante para a recuperação dela.  Quanto tempo ela estava caída? Por que eu não fui lá quando vi a luz acesa? Por quê? Meu Deus! Por que eu não fui lá antes! – lamentava-se, desesperado.
            - Estava na casa dela e fui dormir na casa da minha cunhada ao invés de ficar ali. Falei pra ela: “- Vó, eu vou dormir lá na Mari. Ela me ajuda a passar a limpar o terreno e depois venho limpar a tua casa. Ela me disse: “Pode ir”. Ela estava bem! Se eu tivesse ficado, ela tinha sido socorrida antes. Por que eu não fiquei! – dizia em pranto uma de minhas irmãs.
            Por que, por que... Por quê? As culpas começaram a ser confessadas, pensava que era a forma de se aliviar o desespero. Como não perceberam que a mãe estava vulnerável, que tinha envelhecido? Setenta e seis anos! E achavam que nada lhe aconteceria! Refletia, agora, que existe uma incapacidade de se perceber que os pais são mortais, assim como quando jovens, a mãe é um ser assexuado. Não se enxerga a mulher com necessidades de mulher. Acha-se que mãe sempre vai estar por perto para confortar e segurar a barra, inquebrável, forte, inatingível pelas mazelas, que no dia a dia atingem outras mães! A deles não! A deles viveria para sempre! Triste engano! E quando nos deparamos com a realidade, ficamos completamente desprotegidos e cheios de culpas. A mãe não mais estaria por perto para perder sono, por causa de um dos filhos, sofrer porque sofriam, sempre vigilante as suas falhas, aos seus problemas. A mulher que jamais se arcaria, está ali... Completamente indefesa e pode deixá-los em um segundo! Como lidar com essa verdade? Tirar forças de onde se é ela quem sempre fez isso?
            Ah! Dona Leôncia! Que vida a tua! As lembranças corriam por sua cabeça. Estava diante de Mayara, a mulher alta, forte, com uma vida de sofrimentos: seis filhos, marido alcoólatra que a espancava. Viveu com ele uma vida de tristezas. Seis filhos, tinha de aguentar! dizia ela quando perguntavam por que não o deixara! Viúva aos vinte nove anos! O marido morrera vítima de cirrose hepática. Não precisariam mais, no meio da noite, pedir socorro em casa do primeiro vizinho que lhes abrisse a porta.  Aquele tempo acabara finalmente! Vida nova! Nem conseguiu sentir verdadeiramente sua morte. O que sentiu foi certo alívio. Lembrava-se que, chegando a casa, após o enterro, sentou-me com três de seus irmãos e, aos doze anos, planejou como seriam suas vidas sem o pai. Não havia tristeza.
6
            Mayara e os irmãos têm visto a mãe, dia a dia, como uma pessoa diferente: já viram a mulher de setenta e sete anos ser uma mocinha apaixonada, querendo estar perfumada e maquiada, enfeitada com muitos badulaques para impressionar o cuidador- amor de sua vida-, a paixão pelo médico que a acompanha, as crises de ciúme por julgar estar sendo traída pelas filhas, ora a mãe amorosa ora violenta, por vezes, uma casca sem lembranças, por vezes, de uma lucidez dolorosa, consciente de sua completa dependência. Precisam saber lidar com os momentos terríveis em que a mãe não os reconhece e os chama incessantemente, implorando que a levem para a casa dela. São tantas as provações!
            Mayara, quando se sente perdida, pensa:
            “É isso que temos. E podemos suportar. Se, quase o tempo todo, ela não sabe quem somos, nós sabemos que é nossa mãe.”

           
 
Odenilde Nogueira Martins

           
           
           

            

Unidade de resgate - conto - Odenilde Nogueira Martins -

– Pessoal, ocorrência próximo ao posto da Polícia Federal. Acidente entre dois veículos com vítimas presas às ferragens – a notificação era recebida via rádio.

O som das sirenes imediatamente se fizeram ouvir. Era preciso alertar motoristas e pedestres de que havia uma emergência para que abrissem espaço para a passagem das viaturas, já que cada segundo podia significar a diferença entre vida e morte. 

Os ponteiros do relógio de parede mostravam o adiantado da hora: 23:h45min.

– Vou na lanchonete do Alemão buscar um x-salada. Quer que te traga alguma coisa? – perguntou Gracindo ao companheiro.

Não era rotina duas pessoas permanecerem na unidade, mas Gracindo havia sofrido uma torção no joelho e, por conta disso, não sairia para atender a pedido de socorro.

– Não, companheiro. Trouxe um rango de casa e mais tarde preparo um café. Aqui tá tudo dentro do esperado para uma noite de sexta-feira. Não precisa se apressar.

O som de metal, riscando o piso áspero, doía não só nos ouvidos, doía nos nervos! Era meia-noite. Até, então, tudo estava tranquilo na unidade do corpo de bombeiros, que ficava próxima a uma rodovia federal. A presença de um corpo, vítima de acidente, que aguardava o rabecão do instituto médico legal, não era novidade. Fazia parte da rotina dos plantonistas. O saco preto em um canto não era motivo de desconforto. Ali, convivia-se com sacos pretos, diariamente.

Jucão era o atendente, naquela noite. Tinha como missão receber os chamados de socorro e repassar aos colegas que saíam para atender à ocorrência. Acabara de fazê-lo, os companheiros haviam saído há uns quinze minutos. Estava só. Não que isso o preocupasse. Dizia sempre que se sentia em segurança, pois os mortos não fazem mal a ninguém.

– Tenho medo é dos vivos! – respondia, quando perguntado, sobre o indigesto ofício de recolher cadáveres à beira da rodovia.

O local era famoso por conta das muitas histórias contadas. Padre Jucélio, a cada dois meses, ia ao local para dar uma benção:

– Reza e canja não fazem mal a ninguém. É bom estar de bem com o Todo Poderoso. Com tanta desgraça que vimos todos os dias, nosso espírito preciso se fortalecer na fé – dizia o comandante da corporação. 

Os pelos de Jucão, da cabeça aos pés, eriçaram. Um frio percorreu-lhe a espinha. Estava só! Que barulho era aquele? 

– Do lado de fora. Deve ser alguém do lado de fora! Deixa de bestagem, homem – falou consigo mesmo.

Relaxou. Tantos anos servindo, ali, nunca tivera medo! Voltou a concentrar-se na tela do computador. Dez minutos depois, já esquecido do som de metal riscando o piso áspero, tornou a ouvi-lo, ainda mais cortante. Parecia descer e subir a rampa que dava acesso a um depósito, que também servia de dormitório em noites calmas.

– Não é do lado de fora. É aqui dentro!

Levantou-se e espiou através do quadrado de vidro que havia na porta. Estava tudo quieto. Já estava dando as costas para a porta, quando ouviu:

– Jucãooo... Jucãooooo... 

Alguém estava querendo se divertir as suas custas.

– Quero ver quem é o engraçadinho – murmurou, tomando a direção da rampa de onde vinha o ruído de metal riscando o cimento áspero do piso, e de onde vinha o som da voz que o chamava. 

Do alto da rampa, viu o saco negro, que aguardava o rabecão, mover os braços. Em uma das mãos, um pedaço de ferro que usava para riscar o chão.

– Creio em Deus Pai todo poderoso, criador do céu e da Terra...

Enquanto rezava ia saindo de costas, olhos pregados na assombração. Quando tomou certa distância, empreendeu uma corrida para fora da unidade. Ouvia a voz:

– Jucãoooo, volte! Não me deixe aqui. Volteeeeeee!

Só parou de correr quando chegou às margens da rodovia.

Ainda ouvia alguém chamando:

– Juca, venha cá! Sou eu, o Gracindo! 

Não teve conversa. Ninguém conseguiu convencê-lo a voltar. Pelo sim, pelo não, padre Jucélio continua visitando a unidade regularmente.



Odenilde Nogueira Martins